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Gyeongbokgung Palace

Bem-vindo à Coréia do Sul

Da vibrante e cosmopolitana capital Seul aos templos preservados em províncias milenares, esse país asiático com povo amistoso e gastronomia potente merece ser descoberto.

 

Depois de quase 30 horas de viagem, entre voos e muito tempo de espera, cheguei cansado em um fim de tarde cinzento e frio à fervilhante e colorida Seul, a capital sul-coreana. Já na primeira noite, tive meu primeiro contato com a exótica culinária local, com seus pratos fartamente apimentados. Exausto pela jornada, fui para a cama cedo.

Como não se passa impunemente por 11 horas de fuso horário, quando finalmente consegui pregar os olhos já era hora de me levantar. Com 10 milhões de habitantes, Seul é uma cidade limpa e cosmopolita, onde modernos arranha-céus corporativos convivem em harmonia com antigos templos budistas e palácios milenares. Os coreanos são obcecados pela limpeza de suas cidades. Se você tem nas mãos algo para jogar fora, dificilmente vai encontrar lixeiras em espaços públicos e, mesmo assim, terá de se esforçar para encontrar um papelzinho que seja no chão. Perto da hora do almoço, as já movimentadas ruas ficam ainda mais agitadas. Executivos engravatados descem dos muitos edifícios que se espalham pela capital e misturam-se a ruidosos grupos de estudantes saindo das aulas. O trânsito em Seul é ainda pior que o de São Paulo, com a diferença de que não se ouvem buzinas, discussões de trânsito nem pessoas dizendo impropérios ao volante. Ir a qualquer lugar de carro leva sempre muito tempo, o melhor é usar o eficiente metrô. Com nove linhas, ele transporta diariamente cerca de seis milhões de pessoas.

Da cerâmica ao ginseng

Apesar de a badalada rua Insadong, no movimentado centro de Seul, atrair a maioria dos turistas ávidos por fazerem compras e jovens descolados com suas roupas e cabelos ultracoloridos, nada se compara à vastidão e imensa variedade do Mercado Dongdaemun. São vários quarteirões e milhares de lojas e barracas sempre apinhadas de gente. Lá se encontra tudo o que há na Insadong e muito mais, a preços bem menores. “Eles vêm comprar aqui”, diz um comerciante do Dongdaemun, referindo-se aos lojistas da Insadong, a rua com poucas centenas de metros onde se espremem lojas de porcelanas, pincéis, máscaras típicas, cerâmicas, doces tradicionais, galerias de arte e uma infinidade de lojas de cosméticos. A Coreia do Sul tem tradição na fabricação de produtos de beleza de alta qualidade. Uma das consumidoras dos cosméticos produzidos no país é Masako, a princesa do Japão.

Além de suvenires de todos os tipos e para todos os gostos – muitos bastante duvidosos –, no Mercado Dongdaemun há uma oferta impressionante de alimentos, desde pescados e frutos do mar vivos em tanques e bacias, passando por condimentos regionais, especialmente incontáveis variedades de pimentas vermelhas em diferentes moagens, até roupas, quinquilharias e ginseng em todas as formas possíveis – fresco, seco, em conserva, em pó, chá, emulsão, xarope, elixir, cápsulas. Existe uma grande variedade de produtos à base dessa raiz à qual os coreanos atribuem benefícios como longevidade, vitalidade, disposição, clareza mental e poderes afrodisíacos.

Uma das receitas bastantes populares no país, aliás, é preparada com ginseng: o samgyetang, uma sopa de frango e ginseng muito consumida na hora do almoço.

Não deixe de visitar Gyeongbokgung, o Palácio da Felicidade Brilhante, localizado em um parque no norte de Seul. Construído em 1394, foi incendiado e passou três séculos abandonado, até ser reconstruído em 1867. No início do século passado, foi totalmente destruído pelos japoneses e segue até hoje sendo restaurado. Aliás, falando em japoneses (e chineses), se você quiser irritar ou ofender um coreano, insinue que a Coreia é parecida com o Japão ou com a China. É cara feia na certa. Apesar de a relação entre os povos hoje ser pacífica, há diferenças e ressentimentos históricos entre essas nações.

Em geral, o povo coreano é muito amistoso e tem curiosidade sobre o Brasil. Andando pelas ruas, percebi que as pessoas adoram posar para fotos, o que me ajudou a conseguir boas imagens. Quando perguntavam minha origem, sempre erguiam as sobrancelhas e demonstravam surpresa diante da resposta. Ao contrário do que pensamos, o Brasil é pouco conhecido em muitos lugares, inclusive aqui. A Copa do Mundo da Coreia do Sul e Japão, em 2002, ajudou os sul-coreanos a descobrirem nossa existência, mas seu conhecimento sobre o Brasil é praticamente zero.

Além da capital

Pouco mais de 40 quilômetros separam a capital sul-coreana da minha parada seguinte, Yongin, ainda na região metropolitana de Seul. Ali está um interessante parque temático, o Korean Folk Village, uma grande área com réplicas de construções de várias épocas, estilos e regiões do país. O objetivo é apresentar aos turistas um panorama das tradições e do modo de vida sul-coreano. Artesãos hábeis, como trançadores, pintores, arqueiros e ceramistas, exibem seus trabalhos no local. São muitas as manifestações culturais nesse interessantíssimo museu a céu aberto.
Em Suwon, que é a capital e a maior cidade de Gyeoonggi-do, o destaque é a Fortaleza de Hwaseong. Construída entre 1794 e 1796, foi declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. Em 2006, uma das torres da edificação foi vítima de um incendiário e a recuperação custou US$ 6 milhões.

Ao sul de Seul também está Gyeongju, antiga capital de Silla, que foi um dos três reinos da Coreia do Sul. Por séculos, foi a mais importante cidade do país e epicentro do budismo, da ciência e da excelência artística. De trem ou de ônibus, a viagem tem duração de quatro a cinco horas. Vale visitar o belo Templo de Bulguksa e o histórico observatório Cheomseongdae, o mais antigo da Ásia Oriental. Trata-se de uma pequena torre com pouco mais de 10 metros de altura e inestimável valor histórico. Nos arredores da construção, curiosas elevações recobertas de grama escondem túmulos milenares.

Ainda mais ao sul fica a vibrante Busan (ou Pusan), a mais importante cidade portuária da Coreia do Sul. Lá, visitei um dos maiores mercados pesqueiros do mundo, o Jagalchi. Em centenas de lojas e barracas, peixes, frutos do mar dos mais variados tipos são mantidos vivos em tanques e reservatórios plásticos. O local oferece também uma infinidade de seres marinhos secos e defumados em quantidades industriais.

Do alto dos 180 metros da Torre de Busan, a vista é tão ampla que em dias de céu muito limpo dá para avistar algumas ilhas do Japão. Vale conhecer também Beomeosa, um dos muitos templos budistas da Coreia do Sul. Embora haja muitas dessas construções pelo país, menos de 20% da população coreana é budista.

De Busan peguei um voo para a vulcânica ilha de Jeju, pontuada por antigos e pequenos vulcões extintos. O maior deles, o monte Halla, com pouco mais de 2 mil metros de altitude, está adormecido há 900 anos. Umas das atrações locais é o esplendoroso Bonsai Garden, um amplo parque com bonsais de até 300 anos de idade. Em torno dele, vastas plantações de chá de folhas miúdas e verdinhas estendem-se até onde a vista alcança. Jeju também abriga o mais belo templo sul-coreano, o Yakcheonsa. É incrível a quietude que reina no local.

Uma tradição de séculos resiste ao tempo: as mergulhadoras de Jeju, velhinhas de 80 anos ou mais, que mergulham habitualmente em busca de moluscos. A decana do grupo tem mais de 90 anos e mergulha diariamente a cerca de 20 metros de profundidade. Restam poucas dezenas dessas bravas e arredias mergulhadoras. Há pouco tempo, a National Geographic produziu um documentário sobre elas.

Sabores particulares

A gastronomia sul-coreana merece um capítulo à parte. Uma das tradições locais são os banchan – porções diminutas e variadas que acompanham o prato principal. Legumes cortados em fatias finíssimas, anchovas crocantes secas e salgadas e vegetais apimentados são algumas das versões. As possibilidades para essas porções, repostas continuamente durante as refeições. Cultivado no verão e colhido no outono há mais de 3.500 anos, o arroz é ingrediente fundamental da alimentação coreana.

Cozido com pouco ou nenhum condimento, nem mesmo sal, o arroz é o contraponto perfeito para o flamejante kimchi, acelga fermentada e entremeada de pasta de pimenta vermelha, o alimento mais popular de toda a península coreana. A picância não se restringe ao kimchi – a culinária sul-coreana abusa das pimentas vermelhas.

Nos restaurantes é muito popular o uso de grelhas e panelas sobre as mesas para o cozimento de carnes, verduras, lámen (o macarrão oriental) e cogumelos pelos próprios comensais. Fatiada finamente como um carpaccio, a carne de vaca é grelhada ou cozida em molho agridoce de maçã ou caldo de legumes e depois embrulhada em trouxinhas de verduras cruas que são comidas com as mãos.

Os chás são uma importante instituição local. Há casas especializadas em utensílios, acessórios e ingredientes para um correto serviço de chá, algo muito mais complexo do que se imagina. Algumas variedades são raras e caras, como os melhores chás brancos, cobiçados pela doçura natural.

O kkultarae é tão especial que merece ter sua história contada. Também chamado de court cake, ou doce da corte, era antigamente restrito ao imperador e seus convivas. Para fazê-lo, o doceiro pega um pedaço de mel gelado, previamente misturado a um ingrediente misterioso, e o estica dentro de uma vasilha com polvilho doce, formando um anel. Novamente dentro da tigela, ele estica e dobra o anel mais uma vez, sempre retirando o doce do polvilho a cada torcida. Depois de oito ou dez dobras, o que começou com um anel grosso e único se transforma em uma finíssima e delicada cabeleira com até 16 mil fios de mel, todos individualmente recobertos com polvilho doce. Então, o doceiro corta uma seção de filamentos, coloca-a na palma da mão, deposita nela amendoins ou castanhas moídas e enrola o feixe de fios de mel ao redor do recheio, formando com ele uma pequena e delicadíssima trouxinha que ao ser levada à boca desmancha instantaneamente. Os doceiros que fazem o kkultarae pelas ruas costumam ser jovens, simpáticos e muito performáticos. Eles adoram entreter os turistas cantarolando as etapas da fabricação.

Reminiscências da guerra

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Em minha segunda viagem ao país, visitei Panmunjeom, a 50 quilômetros de Seul, na famosa DMZ – Demilitarized Zone, paralelo 38, a Zona Desmilitarizada, na fronteira entre as Coreias do Sul e do Norte. Paradoxalmente, é a fronteira mais militarizada do planeta. No fim da Guerra da Coreia, em 1953, cada lado criou uma faixa de exclusão de dois quilômetros de largura, afastando os dois exércitos em quatro quilômetros. Como até hoje os países não assinaram um tratado de paz, mantém um armistício que suspendeu temporariamente as hostilidades entre eles. Ninguém pode entrar nesse território nem mesmo os soldados.

As Coreias mantêm um ostensivo e pesadíssimo aparato militar na região. Do lado do sul, há ainda um efetivo norte-americano de 28 mil soldados estacionado. A fronteira entre os países tem 238 quilômetros de extensão e é completamente pontuada por instalações militares, postos de polícia a cada 300 metros, grossas cercas duplas de arame, sensores, alarmes, câmeras e muitos soldados de prontidão.

Em Panmunjeom há um ponto de observação onde civis podem dar uma espiada na Coreia do Norte. Antes de chegar lá, no entanto, é preciso passar por seguidas barreiras militares. O que se vê é a curiosa Propaganda Village, a cidade cenográfica construída para que os ocidentais vejam que o norte tem cidades arrumadinhas. O prédio mais alto, de 15 andares, não tem sequer elevador. Os poucos habitantes foram transferidos para lá pelo governo para dar alguma vida ao lugar. Próximos ao posto de observação, estão três túneis que a Coreia do Norte escavou em tentativas de invadir o país vizinho. No local, um pequeno e interessante museu guarda objetos da guerra entre as Coreias.

A região de exclusão criou uma insólita área de preservação ambiental, onde ressurgem espécies não avistadas durante muitos anos, como o leopardo-de-amur, o tigre-coreano e o urso-negro-asiático. A contradição é que a sobrevivência desses animais depende da existência da área de exclusão. Se um dia os países se reaproximarem, o futuro dessas espécies estará comprometido, a menos que seja criada uma área formal de preservação.

 

Aposta na educação

Ao viajar hoje pela pujante Coreia do Sul, uma das mais prósperas economias do planeta, é difícil imaginar que esse país moderno, limpo, com altas taxas de desenvolvimento e um dos melhores níveis de educação do mundo era, há 50 anos, uma nação basicamente agrária, pobre, com economia de subsistência, índices de até 40% de analfabetismo e paisagens dominadas por extensas planícies alagadas e infestadas de mosquitos, onde reinavam a malária e a disenteria, que ceifaram a vida de milhões de pessoas. Mas o que fizeram os sul-coreanos para chegar à prosperidade? Apostaram na educação.

Na década de 1960, o país reformulou profundamente seu sistema de ensino, dos níveis mais básicos à pesquisa científica. “Se o aluno não aprende, o reprovado é o professor”, diz um ditado corrente. Os professores passaram a ser bem remunerados e são respeitadíssimos. Nas escolas, 100% dos alunos têm computadores individuais e são fortemente estimulados a participar das decisões administrativas das instituições. As famílias são totalmente comprometidas com o ensino e a educação dos filhos. Nos fins de semana, vão à escola para assistir a peças de teatro, filmes, palestras, fazer cursos e participar de reuniões. A Coreia do Sul é o país onde as famílias mais investem em cursos complementares e de extensão não contemplados pela excelente educação gratuita fornecida pelo governo. Resultado: tornou- se um dos maiores exportadores de pesquisadores e cientistas para o mundo.

 

Texto: Johnny Mazzilli,  fotógrafo, viajante profissional, travel writer e editor.

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